Castro Verde é uma terra de encontros. É o ponto de encontro de todos os caminhos que há séculos e séculos construíram e constroem as planuras e serras do ocidente peninsular. Gentes calcorreando caminhos atrás dos gados; mineiros procurando na terra o brilho dos metais; gentes lançando a semente à terra do seu sustento.
Neste mosaico social e económico, Castro Verde construiu e constrói a sua cultura, os seus hábitos, as manifestações do seu património de raízes imemoriais. Expressões visíveis no seu artesanato, nas feiras, no saber estar destas gentes campaniças. Mas é o cante que reflecte um dos traços culturais mais genuínos do concelho, onde sempre se cantou de modo muito próprio, traduzindo uma oralidade muito rica. Agora o cante é dinamizado pelos grupos corais, que organizados em associações procuram dinamizá-lo, de forma a transmitir às novas gerações os sons únicos deste cantar de Castro. Ainda é possível ouvi-lo ao final da tarde em algumas tabernas, nas ocasiões em que o petisco e o convívio o proporcionam.
E se o “cante” é um dos mais puros reflexos do património cultural desta região, a viola campaniça, instrumento cordiforme, tem aqui um dos seus últimos redutos e depositários da memória musical dos descendentes dos instrumentos de cordas medievais. Utilizada para acompanhar o cante de despique e baldão, bem como algumas modas campaniças, o seu som oferece emoções únicas e diferentes. Outrora era instrumento utilizado nos bailes populares.
Ao longo de todo o ano, são estes e outros “bailhos” uma forma de reencontro da comunidade castrense. Na Pinha, na Semana Santa, nos Santos Populares, nas festas religiosas ou nas simples comemorações de aldeia. Mas a Feira de Castro continua a ser o ponto de encontro destas culturas musicais transtaganas, mescladas num sabor de Sul que pouco a pouco os tempos vão apagando. Contudo, aqui ainda resiste um certo exotismo que nos oferece, em particular, o sábado e o domingo da feira. Feira centenária, foi criada em 1620/1621 por Filipe III, com o intuito de reverter as receitas do terradego (imposto por ocupação de espaço na feira), na construção ou restauro da Igreja das Chagas do Salvador, agora os Remédios, que a tradição dizia ter sido mandada construir por D. Afonso Henriques. O pedido dos castrenses foi atendido pelo rei filipino, mas removendo a feira que se realizava então na Vila de Padrões. E a feira foi-se construindo ao longo dos séculos assente numa lógica profundamente comercial para toda a região sul. “Quem vai à Feira de Castro /E se apronta tão bonito /Não pode acabar a Feira /Sem entrar no bailarico /Sem entrar no bailarico /A modos de bailação /Ai que me deu um fanico /Nos braços de um manganão…”. É esta melodiosa envolvência que Paulo Abreu e Rui Veloso imortalizaram numa canção bem recente, que ainda veste a Feira de Castro dos dias de hoje. Ali tudo se vende. Roupa, plásticos, loiça, cadeiras de verga, as últimas novidades “made in china”, produtos hortícolas, frutos secos e artigos regionais. A feira é um leque interminável de cores, de vozes, de falares num rendilhado quantas vezes ininteligível. A Feira de Castro é o espaço de reencontro. Entre a tradição e a modernidade. O ontem e o hoje. As gentes de hoje trazendo as memórias de ontem. E aqui, a tradição oral que a Feira invoca, renasce no cante ao baldão, no cantar ao desafio, nas expressões tradicionais de transmissão do património imaterial. O concelho de Castro Verde carrega nas suas vivências este património da idade dos homens. E é dessa memória que faz os novos caminhos. Um largo caminho que começa quando os primeiros povos mediterrâneos chegam aqui em busca dos minérios destes campos de cobre, estanho, ouro e prata. Os mesmos metais nobres que entre o século I a.C. e o século III d.C. os romanos exploraram na região, levando-os a construir uma impressionante grelha de pequenos entrepostos em todo o território, os castella, e que ainda hoje se assumem como referentes paisagísticos no suave ondulado destas terras. Castelo do Vale de Mértola, Castelo das Juntas ou o Castelo das Amendoeiras, são alguns desses sítios que entretanto terão sido reutilizados como villae agrícola. Mas do processo de romanização, o Castelo Velho do Cobres é, sem dúvida, a grande estrutura amuralhada que marca a ocupação protohistórica no concelho de Castro Verde. A riqueza das pastagens do “Campo Branco” e, em particular, das terras da região de Castro Verde, leva ao aparecimento de pequenos aglomerados agro-pastoris em particular no território dos concelhos de “Entradas”, “Padrões” e Castro Verde. E é com os processos de transumância dos séculos XV/XVIII, que todo o concelho vai ganhar uma personalidade económica de invejável pujança, que leva ao aparecimento de um importante conjunto de edifícios religiosos, demonstrativo da importância social deste “concelho” na estrutura sócio-económica da região.
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